sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Música no ar


A não-música está (no ar)
Solta, sem som
Abstrata
A música se faz é na mente da gente!
Presa, concretiza-se nas linhas e nos espaços da pauta
Então, músicos a reconhecem
E reproduzem (no ar), novamente solta,
A sim-música


Assis Furriel

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Poesia de Manoel de Barros


Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas
mais que a dos mísseis.
Tenho em mim
esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância
de ser feliz por isso.
Meu quintal
É maior do que o mundo.


                                    (Manoel de Barros)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Aquiles



O amor me caça

O amor não cansa

e quase me alcança.


O amor ameaça

morder meu calcanhar.




Cida Barreiros

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Adeus, Hobsbawm

Durante os anos do curso de história, lembro-me da minha felicidade e de outros colegas por vivermos no tempo de Eric Hobsbawm. Lemos tanto o autor que tínhamos o conhecimento claro da sua importância e que nos dava orgulho saber que ele ainda vivia e continuava a produzir, apesar da idade avançada.

Morre hoje aos 95 anos de idade o mestre do século XX. De família judia, Hobsbawm nasceu na cidade de Alexandria, no Egito, em 9 de junho de 1917. O pai de Hobsbawm, o britânico Leopold Percy, e sua mãe, a austríaca Nelly Grün, mudaram-se para Viena, na Áustria quando ele tinha apenas dois anos e depois para Berlim, na Alemanha. Com 14 anos, após a morte dos pais, mudou-se com os tios para Londres, quando já havia aderido ao Partido Comunista. Essas idas e vindas muito provavelmente explicam o seu interesse pelo estudo dos conceitos de nação, de nacionalidade e de nacionalismo. Afinal, de onde era Hobsbawm? Ele costumava dizer que era do mundo.

Hobsbawn é considerado um dos maiores historiadores do século 20 e escreveu "A Era das Revoluções", "A Era do Capital", "A Era dos Impérios", refletindo o século XIX e a "A Era dos Extremos" que abrange o século XX. Considerado por muitos como um generalista, Eric buscava dar conta do todo. O problema é que é preciso correr para dar tempo de falar de tudo e aí corre-se o risco de perder algo ou mesmo tornar o texto um tanto confuso. Mas eu adoro essa coragem e esse talento para dar um panorama geral do momento. É interessante perceber que num determinado tempo fatos históricos acontecem em várias partes do mundo a partir de semelhntes demandas.

Ainda assim, Hobsbawm ficou marcado pelo interesse no estudo do desenvolvimento das tradições e seu trabalho marcou-se pelo estudo da construção destas dentro do modelo do Estado-nação. Para ele, muitas vezes, as tradições são inventadas para legitimar nações. Esse é um assunto constante em Hobsbawm, tendo ele dedicado a obra "Nações e nacionalismos desde 1780" só para esse tema. Para o autor, o Estado é que forma a nação e o nacinalismo e não o oposto, como se imagina. A "consciência nacional", como a entendemos, para ele é um fenômeno artificial e relativamente recente.

Eric Hobsbawm foi membro do grupo de historiadores marxistas britânicos, juntamente com Christopher Hill, Rodney Hilton e Edward Palmer Thompson criadores da "História Social", importante corrente que nos anos 60 buscava entender a história da organização das classes populares, suas lutas e suas ideologias.

O intelectual figura entre os maiores expoentes da sua disciplina. Podemos elencar entre esses, os franceses da Escola dos Annales Marc Bloc, Lucien Febvre, Fernand Braudel e Jacques Le Goff (os dois primeiros, fundadores da Revista dos Annales em 1929, os outros dois da segunda e terceira gerações da Escola, respectivamente); os também franceses Roger Chartier e Francois Furet e o inglês Peter Burke, todos ligados também a essa importante escola francesa. Outros importantes estudiosos da área são Perry Anderson e seu irmão Benedict Anderson cuja principal obra "Comunidades imaginadas" fala do assunto recorrente em Hobsbawn e é um clássico que não pode deixar de ser lido por quem se interessa pelo assunto "nacionalismo".

Além das obras já citadas, Hobsbawm ainda escreveu sobre a "História Social do Jazz". Para quem gosta de história e música como eu, um prato cheio. 

Valeu, Mestre!

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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Dois anos de Blog do Chico


Enfim, dois anos desde a primeira postagem de Eu e o meu nome, na qual inaugurei este espaço, explicando o porque do meu nome. _Afinal, sou Chico, sou Francisco, sou Assis? Devo dizer que quando criança, até eu me confundia com essa questão.

Tenho tido uma grande alegria por trocar ideias com amigos e com pessoas que chegaram, gostaram e a partir daí se tornaram também amigas, ainda que quase sempre virtuais. Desses tantos amigos pude aproveitar tantas outras ideias, desafios, inspirações etc. Pessoas que ao entrarem no blog deixaram suas impressões e as quais pude descobrir seus talentos também. Essa troca faz muito bem e legitima qualquer tentativa de expressão.

Essa liberdade de escrever sem a pretensão de qualquer erudição besta, mas de expressar o melhor de nós é o que importa. A poesia, a música, a literatura, a história, a crônica etc. estão aqui nas quase 500 postagens, visualizadas nas mais de 21.500 visitas, divididas pelo público de quase todos os continentes. Entre as dez publicações mais visitadas estão O bonde da história, Fahrenheit 9/11: uma resenha do filme de Michael MooreA intertextualidade na obra de Caetano Veloso,  Triângulo amoroso - uma alegoria antiga de caranaval. Só para citar os meus favoritos, sem contar outros que gosto bastante, mas não estão na lista dos dez mais.

É verdade que de vez em quando bate uma preguiça de escrever e acabo por não postar nada. No início tentava cobrir a moleza com alguma postagem aleatória, mas depois vi que essa prática não deve ser obrigatória e sim prazerosa. Um artigo ou uma postagem qualquer precisa dizer a o que veio. Precisa ter sentido, fazer alguma diferença pra quem lê e, obviamente, pra quem publica.

Estamos aí, agradecendo a todos que tem feito a diferença na rede; a todos que são a razão do meu interesse em manter esse espaço. Eu costumo dizer aos amigos que o artista, de um modo geral, só o é pelo público que o aplaude ou mesmo que o critica. Pois ninguém vive só pra si. Vivemos para trocar, para aplaudir e ser aplaudido. Esse é o feedback necessário. Sem isso não faria sentido qualquer forma de expressão.

Obrigado!



Vanessa da Mata - "Meu Aniversário"

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sábado, 8 de setembro de 2012

O menino que carregava água na peneira

(Manoel de Barros)


"Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos."

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Murar o Medo – Mia Couto


“O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos actuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinaram a recear os desconhecidos. Na realidade a maior parte daviolência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território. O medo foi afinal o mestre que mais me fez desaprender…

...Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global: "Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras." E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe."
Mia Couto



Conferências do Estoril 2011 - Mia Couto

Importante evento no qual foram debatidos temas
como a arquitetura da governanção global,
à crise financeira e às suas consequências, passando pela segurança humana.
Para saber mais, acessewww.conferenciasdoestoril.com

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Solidão



Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

terça-feira, 31 de julho de 2012

Saudades de Antonio Brasileiro




Na capa, ele acende um charuto, seu derradeiro prazer de fumante. No encarte, Ipanema resplandece, com o Morro Dois Irmãos ao fundo, tendo ao lado uma epígrafe de Antoine de Saint-Exupéry ("L'essentiel est invisible. On ne voit qu'avec le cœur"), complementada, no outro extremo do encarte, por uma citação de Guimarães Rosa: "O resto era o calado das pedras, das plantas bravas que crescem tão demorosas, e do céu e do chão, em seus lugares". No miolo, uma série de imagens que evocam nossa exuberante natureza (elementos de flora, fauna e indígenas) e fotos de objetos pessoais e emblemáticos do maestro: seu chapéu Panamá, óculos, piano, lente de aumento, dicionário - a iconografia justa (projeto gráfico de Ana Jobim e Marcos Martins, fotos de Ana Jobim) para um CD que pretendia ser um perfil do maestro, uma repassada em sua obra, e tornou-se, inconscientemente, uma despedida.

Em Antonio Brasileiro, Tom retoma temas do passado ("Insensatez", "Só danço samba", "Surfboard", "Chora coração", na voz de Paula Morelenbaum), reverencia alguns de seus heróis (Radamés, Bandeira, Pelé), cerca-se de amigos e parceiros (Caymmi, Ron Carter, Sting) e estabelece um recorde de familiares à sua volta, acrescentando aos da Banda Nova o neto Daniel e a filha Maria Luiza. Daniel, então com 21 anos, produziu o disco com seu pai, Paulo, e pilotou os teclados em duas faixas. Maria Luiza, então com sete anos, cantou a duas vozes com o pai um samba inspirado no seu "cabelo amarelo" e nos seus "olhos cor de chuchu", singelamente intitulado "Samba de Maria Luiza".

Ao todo, 12 músicas do Antonio Brasileiro, dois originais de Caymmi ("Maracangalha" e a recentíssima "Maricotinha"), mais a versão ("Blue Train") que Tom fez para "Trem azul", de Lô Borges e Ronaldo Bastos. Além do "Samba de Maria Luiza", eram inéditos em disco, na interpretação de Tom, o cinematográfico "Pato preto", a telenovelística "Querida" (que nunca fora gravada por inteiro), o ecológico "Forever green" (que deixara de ser gravada no disco do concerto da Rio Eco-92 por falta de condições técnicas), o carnavalesco "Piano na Mangueira", o onomatopaico "Trem de Ferro" (sobre o poema de Bandeira, antes só interpretado por Olivia Hime) e os choros "Meu amigo Radamés", originalmente composta em 1985, e "Radamés y Pelé". O trecho final dos violinos de "Meu amigo Radamés" foi a última coisa que Tom pôs num pentagrama. As cordas já estavam prontas no estúdio, quando ele chegou com a parte que escrevera em casa, na noite anterior.

Com o reforço de oito violinos, duas violas, dois cellos, duas trompas, mais o Flügelhorn de Marcio Montarroyos, o clarinete de Edu Morelenbaum, a guitarra de Pedro Sá, a percussão de Duduka da Fonseca e os trombones de Raul de Souza e Vitor S. Silva Santos, acabou resultando num dos discos mais instrumentais que Tom gravou no Brasil. E num sucesso póstumo, timbrado por um Disco de Ouro e um Grammy.

"Nesse tão variado e múltiplo Antonio Brasileiro", escreveu Caetano Veloso no press release do CD, "Jobim mostra acima de tudo sua generosidade. Os cuidados tímbricos e o bom gosto das linhas, assim como o imaginoso das composições, asseguram que o sol da nossa música está na potência total de sua luminosidade. Ele não nos dá apenas suas canções e seus sons. Ele prova ser excelente reprodutor biológico, trazendo ao mundo filhos e netos que por sua vez produzem boa música, inclusive junto com ele. É amor e talento. O amor de que o coração de Tom Jobim é o maior repositório: o amor pela música, pelos homens humanos e pela travessia do Brasil".


Texto do site do compositor:


domingo, 27 de maio de 2012

A grande reforma urbana e as transformações culturais do Rio de Janeiro do início do século XX


Prefeito Pereira Passos
Pintura de Eliseu Visconti
Com o surgimento da República e dos ideais positivistas de ordem e de progresso, surge também uma elite burguesa forte e desejosa de uma modernidade com inspirações na Belle Époque francesa. A capital da República precisava se modernizar, perder de vez aquele aspecto colonial que tanto asco provocava nos homens que agora freqüentavam o centro da cidade, quer por seus negócios, quer pelo desfile da moda ou do comércio e do flanar despreocupado. Essas práticas requeriam, de fato, uma cidade urbanizada e limpa, de preferência, nos moldes parisienses.

A chamada Regeneração é a série de medidas tomadas pelo governo federal e municipal que pôs em prática esse desejo burguês: a necessidade de refazer a cidade. O prefeito Pereira Passos representou a principal figura dessa reforma que alijou de suas casas e de seus ambientes muitos habitantes, em sua grande maioria, pobres, negros e mestiços, que sem opção, acabaram por ocupar os morros mais próximos, formando o que viria ser as favelas ou mudando-se para os subúrbios, à época, regiões rurais, sem a mínima urbanidade. Como disse o médico e escritor Afrânio Peixoto: “os sertões do Brasil começavam quando terminava a Avenida Central, portanto, na periferia da cidade do Rio de Janeiro, capital da República” (Lima e Hochman: 1996; p. 37).

Manchete do Jornal do Brasil de 1903

O quadro urbano carioca do início do século XX apresentava-se, de fato, caótico e sem condições de atender às demandas dos empresários comerciantes, europeus que vinham à cidade em busca de novos negócios. O antigo cais não era capaz de atender aos grandes navios que não conseguiam atracar; as ruas estreitas e tortuosas dificultavam as conexões com o porto, os terminais ferroviários e os armazéns e estabelecimentos comerciais; as regiões pantanosas resultavam em todo tipo de doença contagiosa, como o tifo, a varíola, a febre amarela entre outras. Esse quadro, naturalmente, espantava os europeus que, receosos, recuavam ante a esses riscos. A política de embelezamento e racionalidade consistia em abrir novas e largas avenidas, na derrubada de prédios velhos, os chamados cortiços, na limpeza e no saneamento das ruas do Centro.

Morro da Providência: Anos 20
(morro da favela)

Desse modo, a população pobre foi obrigada a se mudar para as periferias, como as das regiões da Praça Onze e da Cidade Nova, como também a ocupar os morros próximos, como os da Conceição, no bairro da Saúde e da Providência (morro da Favela), na Gamboa. A política urbanizadora do Prefeito Pereira Passos, inicia-se em 1902 e segue até 1906, a qual foi conhecida popularmente por "Bota abaixo". 


Av. Central (antes)
Detalhe do Morro do Castelo
(acima, à esquerda),
posteriormente removido

 O marco inicial das práticas de regeneração da cidade foi a inauguração da Avenida Central e a promulgação da lei da vacina obrigatória em 1903. Junto à reforma urbana, foram realizadas as campanhas de higienização da cidade. Uma dessas campanhas foi a de extermínio dos ratos. Oswaldo Cruz determinou uma radical desratização e, para isso, organizou uma brigada composta por todo aquele que quisesse participar. Cada um dos participantes deveria apresentar cinco ratos mortos por dia. Os que trouxessem mais que este número eram gratificados por 300 réis por cabeça (Diniz: 2007; p.18).

Av. Central (depois)
 Nessa reforma, eram destruídos os casarões coloniais, considerados antros de sujeira e desordem, transformados em cortiços, onde se apertava boa parte da gente pobre da cidade. Em seu lugar, grandes avenidas, praças e jardins, tudo inspirado no modelo francês. Antes mesmo da grande reforma, observa-se que a República, recém chegada, apresentava como uma de suas características a prevenção contra pobres e negros, “prevenção esta que se evidencia principalmente na forte repressão aos capoeiras, levada a efeito em 1890 e na destruição (não sem violenta reação popular) em janeiro de 1893, pelo prefeito Bento Ribeiro, do “Cabeça de Porco”, o mais famoso cortiço do Rio de Janeiro, localizado na atual rua Barão de São Félix, nas fraldas do Morro da Providência, nos terrenos em parte cortados hoje pelo túnel João Ricardo, e que abrigava, à época de sua demolição, cerca de 1.000 pessoas” (Lopes: 1992; p. 5).

Em resumo, o plano urbanístico visava a remodelação do porto da cidade e das áreas próximas, facilitando seu acesso aos ramais da Central do Brasil e da Leopoldina; a abertura da avenida Rodrigues Alves e da avenida Central (atual Rio Branco) que cortaria o centro comercial e financeiro que seria também recons- truído e remodelado; melhoria do acesso à Zona Sul, que se tornaria definitivamente a região ocupada pelos mais abastados da cidade, com a construção da avenida Beira-Mar; e a reforma do acesso à Zona Norte com a abertura da avenida Mem de Sá e com o alargamento das ruas Frei Caneca e Estácio de Sá. Além disso, alargamentos de várias ruas e pavimentação e ampliação dos serviços urbanos como o dos transportes. O combate às epidemias, executado sob a liderança do Dr. Oswaldo Cruz, também marcaria profundamente essa fase (Moura: 1983; pp. 30-31).

Era preciso mudar não somente a estética arquitetônica da cidade, mas os hábitos de sua gente. Portanto, costumes ligados ao modo da sociedade tradicional do século passado, elementos de cultura popular, a boemia, o violão e o pandeiro, a capoeira, o batuque e o candomblé, de características africanas, eram
condenados e perseguidos pela polícia. Uma política de expulsão dos grupos populares da área central foi implantada, assim como um “cosmopolitismo agressivo profundamente identificado com a
vida parisiense” (Sevcenko: 1983; p30).

                                                     .....................................................

(Monografia (parte) “SAMBA E MODERNIDADE - O samba como agente transformador na primeira metade do século XX” de 2010, de Francisco de Assis Furriel Gonçalves)

Bibliografia:

DINIZ, André. Almanaque do samba: a história do samba, o que ouvir, o que ler, onde curtir. 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.

LIMA e HOCHMAN. “Condenado pela raça, absolvido pela medicina: O Brasil descoberto pelo movimento sanitarista da Primeira República”. In: MAIO, Marcos Chor (org). Raça, ciência e sociedade. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1996 (cap.2)

LOPES, Nei. O negro no Rio de Janeiro e sua tradição musical: partido alto, calango, chula e outras cantorias. Rio de Janeiro: Pallas, 1992.

MOURA, Roberto. Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1983.

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na primeira república. SP: Brasiliense, 1983. (cap.1)


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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Um pouco sobre Pixinguinha, Donga e João da Baiana

     “Pixinguinha, João da baiana e Donga formam um trio-ícone da história inicial do samba. O primeiro, cujo nome de batismo é Alfredo da Rocha Vianna Filho, ligado mais ao gênero choro, foi de grande importância por sua genialidade e erudição musical. Até hoje, considerado um dos maiores compositores da música brasileira. Seu Carinhoso de 1917, letrado por Braguinha (João de Barro) em 1937, é cantado e cantarolado por todas as gerações de brasileiros graças ao mega-sucesso na voz de Orlando Silva, na gravação do mesmo ano da letra. Instrumentista genial, influenciou os regionais que apareceriam em profusão. Um dos nomes mais constante é o do flautista Benedito Lacerda, com o qual formou dupla. Jacob do Bandolim é um exemplo de gênio-discípulo do grande mestre. Dentre os sucessos deixados pelo músico estão Os Oito Batutas (c/Benedito Lacerda), tango, 1919; Patrão, prenda seu gado (c/Donga e João da Baiana), chula raiada, 1931; Conversa de crioulo (c/Donga e João da Baiana), samba de partido-alto, 1931; Rosa (c/Otávio de Sousa), valsa-canção, 1937; Um a zero (c/Benedito Lacerda), choro, 1949; Lamento (c/Vinícius de Morais), choro, 1962. Todas essas músicas e muitas outras marcam a sua trajetória.

     João da Baiana (João Machado Guedes), filho de baianos, foi um grande ritmista, tendo desenvolvido este talento desde pequeno junto à comunidade baiana da qual fazia parte. Sua primeira composição é de 1923: Pelo amor da mulata. Outras composições marcantes são Cabide de molambo, Patrão, prenda seu gado, Batuque na cozinha.

     Por último, Donga (Ernesto dos Santos) que era filho da baiana Amélia e, como João da baiana, também foi criado em meio às festas e tradições da citada comunidade. Mais que uma história de repertório que, aliás, não foi muito extensa, a importância de Donga está associada à modernização do samba, cuja profissionalização tomou impulso a partir do registro e da gravação de “Pelo telefone”. Fez parte junto com Pixinguinha dos Oito Batutas, tendo excursionado para Argentina e Europa, depois da consagração carioca. Outras composições de Donga: Bamba-bambu, Passarinho bateu asas, Macumba de Oxossi (Diniz: 2006)."



O trio (Donga, Pixinguinha e João da Baiana) em depoimento ao Museu da Imagem e do Som,
no final dos anos 60. (Foto de autor desconhecido)


 (Monografia (parte) “SAMBA E MODERNIDADE - O samba como agente transformador na primeira metade do século XX” de 2010, de Francisco de Assis Furriel Gonçalves)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A esfera, o cubo e o plano: a mínima e a máxima distorção



A cartografia, matéria ligada às geociências, busca projetar num plano bidimensional os mapas da esfera global, sempre preocupada com a mínima distorção, visto que esta é inevitável. Já o Cubismo, movimento artístico criado por Pablo Picasso e Georges Braque no início do século XX, se preocupou em representar num mesmo plano todas as partes dos objetos tridimensionais, sem qualquer compromisso com a realidade.
Portanto, a máxima distorção no Cubismo era uma constante.


Les Demoiselles d'Avignon (1907) de Pablo Picasso
Les Demoiselles d'Avignon (1907) de Pablo Picasso



domingo, 8 de abril de 2012

Roberto Carlos no Blog do Chico

Há muito, queria gravar em vídeos algumas coisas cantadas por mim do repertório do cantor, que desde a infância ouvia e curtia. Do "Rei" da Jovem Guarda, fica aqui uma homenagem, ainda que singela e amadora:
"Quase fui lhe procurar" de Getúlio Cortes, gravada em 1968 no disco "O inimitável", "Nada tenho a perder " também de Getúlio Cortes, gravada em 1969, "É proibido fumar" de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, gravada em 1964 e "Com muito amor e carinho" de Eduardo Araújo e Chil Deberto, gravada em compacto simples em 1968.
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Assis Furriel canta Caetano Veloso

Sete mil vezes
(Caetano Veloso)

Sete mil vezes
Eu tornaria a viver assim
Sempre contigo
Transando sob as estrelas
Sempre cantando a música doce
Que o amor pedir pra eu cantar
Noite feliz
Todas as coisas são belas

Sete mil vezes
E em cada uma outra vez querer
Sete mil outras
Em progressão infinita
Quando uma hora é grande e bonita assim
Quer se multiplicar
Quer habitar
Todos os cantos do ser

Quarto crescente pra sempre
Um constante quando
Eternamente o presente você me dando
Sete mil vidas
Sete milhões e ainda um pouco mais
É o que eu desejo
E o que deseja esta noite
Noite de calma e vento
Momento de prece e de carnavais
Noite de amor
Noite de fogo e de paz




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sexta-feira, 30 de março de 2012

Arranha-Céu: Zé Renato interpreta Sylvio Caldas

Arranha-Céu, o trabalho no qual Zé Renato homenageia Sylvio Caldas é talvez o disco mais maduro do cantor. Uma série de razões me leva a concluir que sim. Sua voz límpida e bela cantando uma série de canções e sambas do repertório do "Caboclinho Querido" cai como uma luva. Sua paixão pelo artista que frequentava a casa de seus pais (revelado por ele mesmo, em um programa de rádio) quando ainda era apenas um menino dá ao disco uma sinceridade, um afeto especial do cantor pelo homenageado que é facilmente percebido. Era, segundo o próprio Zé, um desejo antigo, cantar e gravar as músicas que o encantaram na sua infância. E Zé Renato não fez por menos. Escolheu um repertório de primeira, com clássicos como Arranha-céu (que dá nome ao disco), Faceira, Minha Palhoça, Mulher, Serenata do Adeus e a antológica Chão de Estrelas, entre outras. Tanto as melodias quanto as letras revelam uma poesia não mais existente nas canções atuais (não com essa força, essa pureza e este romantismo). Afinal, Sylvio Caldas era o rei dos seresteiros.

Versos como "Cansei de esperar por ela/ Toda noite na janela/ Vendo a cidade a luzir/ Nesses delírios nervosos/ Dos anúncios luminosos que são a vida a mentir", como já prevendo que se enganara em esperar o amor que não vem: "Cansei de olhar as reclames/ E dissse ao peito não ames/ Que o seu amor não te quer (...) Deitei-me então sobre o peito/ Vieste em sonho ao meu leito/ E eu acordei, que aflição/ Pensando que te abraçava/ Alucinado apertava/ Eu mesmo o meu coração", contidos em Arranha-céu de Sylvio Caldas e Orestes Barbosa e "Oh! mulher estrela refulgir/ Parte, mas antes de partir/ Rasga meu coração/ Crava as garras no meu peito em dor/ E esvai em sangue todo amor/ Toda desilusão", de Serenata do Adeus de Vinícius de Moraes ou ainda no fox-canção Mulher de Custódio Mesquita e Sady Cabral: "Mulher/ Só sei que sem alma/ Roubaste-me a calma/ E aos seus pés eu fico a implorar/ O teu amor tem um gosto amargo/ E eu fico sempre a chorar nesta dor/ Por seu amor/ Por seu amor/ Mulher" são de um romantismo que traduz um verdadeiro dramalhão. Temas, aliás, combatidos pela turma da Bossa Nova, que surgiria anos mais tarde cantando "o amor, o sorriso e a flor".

Mas Zé Renato canta com a maestria de quem conhece o tema desde de garoto e reverencia letra e música de tal modo que acabamos por megulhar nas imagens poéticas dos tempos antigos e nos deleitando com a viagem. Entretanto, não só de dores de amor se nos oferece o repertório. Sambas como Faceira, de Ary Barroso: " Foi num samba/ De gente bamba/ Que eu te conheci faceira/ Fazendo visagem/ Passando rasteira/ (Oi que bom, que bom, que bom)", um clássico do mineiro mais baiano da música popular nacional e Minha Palhoça de J Cascata, com o acompanhamento do violão e da voz de João Bosco, estão presentes, dando graça ao repertório. Zé dá alegria também ao disco, assim como em Como os rios que correm pr'o mar, de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy que diz: "Os rios não voltam pr'o mar/ Meus olhos não deixam os teus/ E tu não vais me deixar/ Graças à Deus".
De todo modo, entre canções de amor e desamor e sambas faceiros, o tom do disco é mesmo, de certo modo, melancólico, mas que a suavidade do cantor do "Boca" faz soar belo e não trágico.
O trabalho de 1992 é um marco na carreira do compositor que depois gravaria outros CDs homenageando outros bambas como Zé Ketti, Noel Rosa e Chico Buarque. 
  
Chão de Estrelas, que deixei pra falar por último, tal sua importância é a música que na minha opinião fecha o disco de fato, por ser a última do CD e por ser o "crème e la crème". A música de Sylvio Caldas sobre a poesia de Orestes Barbosa contém versos antológicos, como "Nossas roupas comuns dependuradas/ Na corda, qual bandeiras agitadas/ Pareciam um estranho festival!/ Festa dos nossos trapos coloridos/ A mostrar que nos morros mal vestidos/ É sempre feriado nacional" e "A porta do barraco era sem trinco/ Mas a lua furando o nosso zinco/ Salpicava de estrelas nosso chão". Não à toa, Manuel Bandeira em uma crônica de 1956 diz considerar "Tu pisavas nos astros distraída" uma das mais belas frases da língua portuguesa.

A letra:

"Minha vida era um palco iluminado/ Eu vivia vestido de dourado/ Palhaço das perdidas ilusões/ Cheio dos guizos falsos da alegria/ Andei cantando a minha fantasia/ Entre as palmas febris dos corações/ Meu barracão no morro do Salgueiro/ Tinha o cantar alegre de um viveiro/ Foste a sonoridade que acabou/
E hoje, quando do sol, a claridade/ Forra o meu barracão, sinto saudade/ Da mulher pomba-rola que voou/
Nossas roupas comuns dependuradas/ Na corda, qual bandeiras agitadas/ Pareciam um estranho festival!/
Festa dos nossos trapos coloridos/ A mostrar que nos morros mal vestidos/ É sempre feriado nacional/
A porta do barraco era sem trinco/ Mas a lua furando o nosso zinco/ Salpicava de estrelas nosso chão/
Tu pisavas nos astros, distraída/ Sem saber que a ventura desta vida/ É a cabrocha, o luar e o violão"


 video
guitarra de Victor Biglione

Zé Reanto ainda conta com um time de primeira, escolhido a dedo. O que torna o trabalho ainda mais especial, como podemos conferir na imagem abaixo:



sexta-feira, 9 de março de 2012

Mulher

(Custódio Mesquita e Sadi Cabral )

Não sei
Que intensa magia
Teu corpo irradia
Que me deixa louco assim, Mulher
Não sei
Teus olhos castanhos
Profundos, estranhos
Que mistérios ocultarão, Mulher
Não sei dizer


Mulher
Só sei que sem alma
Roubaste-me a calma
E a teus pés eu fico a implorar
O teu amor tem um gosto amargo . . .
Eu fico sempre a chorar nesta dor
Por teu amor
Por teu amor . . . . mulher



Em homenagem ao dia 8 de março, dia da mulher!


Este fox-canção é de 1940 e foi gravado por alguns
bambas da música brasileira, entre os quais,
Silvio Caldas, que Zé Renato homenageia em seu
disco de 1993 "Arranha céu".


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quarta-feira, 7 de março de 2012

Oração ao Tempo

(Caetano Veloso)


És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo




Pelo dia do meu aniversário!


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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A poesia de Manoel de Barros II


"O Tempo só anda de ida.
A gente nasce, cresce, envelhece e morre.
Pra não morrer
É só amarrar o Tempo no Poste.
Eis a ciência da poesia:
Amarrar o Tempo no Poste!"

E respondendo mais: "dia que a gente estiver com tédio de viver é só desamarrar o Tempo do Poste."

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A poesia de Manoel de Barros




“A poesia está guadarda nas palavras - é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
... Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossa).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.”


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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Para alegrar coração de moça

Esse texto é uma homenagem à minha esposa Rita e ao nosso casamento, que hoje completa 16 anos. Essa música do Ivan Lins marcou o início do nosso relacionamento, aliás todo o disco "Anjo de mim" de 1995. Em 5 de agosto deste ano, começamos a namorar. Convidei-a para me ouvir cantar com meu grupo num bar do Estácio e dali já rolou uma história musical entre nós. Passamos alguns dias juntos embalados pela JB FM, que maravilhosamente nos ofertava um repertório de primeira, noite a dentro. A história é recheada de fatos e detalhes marcantes que serviram como pano de fundo. No Aptº da Hilário de Gouveia, onde eu me escondia na época, já na madrugada do dia 6, do nada, ela lembrou do aniversário da bomba de hiroshima e, triste pela tragédia, pensou no nosso amor (ou ainda paixão) como uma grande bomba da paz e do amor. Lembrei de Gil e Donato com seu "Japão da Paz" e cantarolei pra ela "uma bomba sobre o Japão, fez nascer o Japão da paz"*.
 "Para alegrar coração de moça" era a mais tocada nas madrugas, embora não fosse o seu carro-chefe. Apaixonados que estávamos, apaixonamo-nos pela música também. Logo, ela me presenteou com o CD, que é lindo e virou o nosso disco. Então, tínhamos a nossa música e o nosso CD. E assim é até hoje. Sempre que comemoramos ou sentimos vontade de recordar o nosso início, a gênese da nossa relação, ouvimos o disco.


O CD



A música

De  Ivan Lins & Salgado Maranhão




(*) A paz (Leila 4) Gilberto Gil /João Donato

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Canção do exílio

Minha terra tem macieiras da Califórnia
Onde cantam gaturamos de Veneza
Os poetas da minha terra
São pretos que vivem em torres de ametista,
Os sargentos do exército são monistas, cubistas,
Os filósofos são polacos vendendo à prestações.
A gente não pode dormir
Com os oradores e os pernilongos
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
Em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
Nossas frutas são mais gostosas
Mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
E ouvir um sabiá com certidão de idade !


                                                                 Murilo Mendes


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Canto de regresso à pátria

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase tem mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que eu veja a rua 15
E o progresso de São Paulo


                                                    Oswald de Andrade


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Nova canção do exílio

Um sabiá na palmeira, longe.
Estas aves cantam um outro canto.
O céu cintila sobre flores úmidas.
Vozes na mata, e o maior amor.
Só, na noite,
seria feliz: um sabiá, na palmeira, longe.
Onde é tudo belo e fantástico, só, na noite, seria feliz.
(Um sabiá, na palmeira, longe.)
Ainda um grito de vida e voltar para onde tudo é belo e fantástico: a palmeira, o sabiá, o longe.



                                                                  Carlos Drummond de Andrade

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Sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiá

                                                (Tom Jobim - Chico Buarque/1968)


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Uma canção

Minha terra não tem palmeiras...
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem relógios,
Cada qual com sua hora
Nos mais diversos instantes...
Mas onde o instante de agora?

Mas onde a palavra "onde"?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus da minha terra
Eu canto a Canção do Exílio!



                                                  Mário Quintana



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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

                                  De Primeiros cantos (1847)

                                                                Gonçalves Dias

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sábado, 7 de janeiro de 2012

Navio Negreiro de Castro Alves







  I
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta. 
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro... 
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?... 
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas... 
Donde vem? onde vai?  Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço. 
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade! 
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa! 
Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos! 
Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
.......................................................... 
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa! 
Albatroz!  Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz!  Albatroz! dá-me estas asas.
 
II
    
Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após. 
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão! 
O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir! 
Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...
 
III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
 
IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar... 
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs! 
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais... 
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri! 
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..." 
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
          Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
          E ri-se Satanás!...
 
V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! 
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?   Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!... 
São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . . 
São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael. 
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!... 
Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer. 
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar... 
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!... 
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...
 
VI
 
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!... 
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!


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